domingo, 13 de maio de 2012

Caiacada no Rio Camaquã - primeiro dia - 5 de maio de 2012

 A remada do mês de maio aconteceu nos dias 5 e 6, mas podemos dizer que ela começou bem antes disso. Além de toda a organização que leva dias e muitos e-mails trocados, fomos para a cidade de Camaquã já na sexta-feira onde pernoitamos no Hotel Molon, um hotel na BR 116, 8 km antes do centro de Camaquã. A diária para solteiro é de R$ 45,00 e R$ 80,00 para casal, com café da manhã, TV, ar condicionado, wi-fi, estacionamento fechado e coberto, e segurança. Quarto e roupa de cama bem limpinhos, chuveiro com água quentinha e restaurante com boas opções. Apesar de ficar ao lado de um posto de gasolina e na BR, não se houve um barulhinho sequer durante a noite. Muito bom! Vai para a minha listinha de bons hotéis! 
Além de Leonardo e eu, ficaram no hotel o Leonardo Maciel, e o casal Maria Helena e Trieste, o organizador da caiacada.
Organizar uma remada não é tarefa fácil. Como já comentei, são dias de trocas de e-mails. Para piorar um pouco a organização deste passeio, depois de várias trocas de ideias, quase que a remada não saiu devido a falta de chuva na região e o nível do rio muito baixo. Mas saiu!
No sábado cedinho, saímos todos do hotel para encontrar o Hélio, de Viamão, seu Pedro e a dona Vera que seriam nossos companheiros de remada e anfitriões. Moradores de Camaquã, remam pela região há anos. Nos encontramos num trevo da 116 e andamos cerca de 37 km de estrada de terra. Era chão que não acabava mais. Por um bom tempo a estrada acompanhava um pequeno rio e já deu para perceber ali, o efeito da falta de chuva. Em vários trechos, havia mais terra do que água, muitas ilhas se formaram e apenas um filete de água entre elas.
Andamos até uma fazenda às margens do rio Camaquã. Os carros ficaram estacionados na fazenda e um amigo do seu Pedro, que estava com eles na super Rural, ficaria com ela, voltando no dia seguinte para buscar os motoristas no final da remada e levando-os até a fazenda onde os carros ficaram. Parece confuso mas na prática é mais fácil, apesar de um pouco demorado. 
Na fazenda onde deixamos os carros, ninguém apareceu nem no sábado, nem no domingo. Sei que é de um conhecido do seu Pedro que nos autorizou a deixar os carros em suas terras, mas não sei quem é a pessoa e não pude agradecer pessoalmente. 
Abaixo, copio parte de um dos últimos e-mails recebidos com a proposta da remada, escrito pelo Trieste. Essa era a ideia original para o final de semana:

"1º Dia: percurso de 30,5 km pelo canal principal do delta, depois saindo-se dele (através do Canal do Cortado) e pegando-se o Arroio Barretas, que deságua na Lagoa dos Patos ao sul do delta do Camaquã. Minha proposta inicial, sujeita a revisão por sugestões que venham a surgir, é que a gente acampe próximo à foz do Barretas. Com isso, faríamos pouco mais de 30 km neste dia.O local do acampamento parece ter uma boa vegetação para a gente ter alguma proteção do vento;.2º Dia: este dia está mais aberto a alterações, tanto as que vcs venham a propor nos próximos dias, quanto até mesmo a alguma alteração que a gente venha a decidir na noite de sábado, já no acampamento, por exemplo. Em função de ser um delta, há muitas variações possíveis, portanto a rota que indico é apenas uma rota básica, com cerca de 23 km. Se a seguíssemos, o total dos dias, portanto, seria de 53 km. Se alguns quisessem prolongar mais sua remada, poderia seguir até a ponta do Vitoriano, a ponta que aparece no canto superior direito da imagem geral que mando em anexo, e voltar para nos encontrar na boca da canal, mas isso é apenas um exemplo. Seu Pedro talvez tenha sugestões neste sentido."
A super Rural do seu Pedro nos aguardando no trevo. Estava começando a aventura. 

Antes de começar a narrativa do dia, gostaria de falar um pouco sobre a região onde passamos o final de semana, que é uma pequena parte da Costa Doce, região denominada assim em razão da proximidade dos municípios com a Laguna dos Patos e que vai da cidade de Guaíba até o Chuí.
"A Costa Doce, uma das mais belas regiões do Rio Grande do Sul, constituída por um complexo lagunar que inclui o Lago Guaíba, o Rio Camaquã, o Canal São Gonçalo e as Lagoas dos Patos, Mirim e Mangueira., foi cenário do principal acontecimento político-militar do Rio Grande do Sul, no século XIX, a Revolução Farroupilha (1835-1845). Prédios e sítios em Guaíba, Camaquã, São Lourenço, Cristal, Piratini, Pelotas, Rio Grande e José do Norte são testemunhas da riqueza gerada pela indústria do charque, motivo básico do conflito, e de episódios dos combates entre farroupilhas e os soldados do Império do Brasil. Figuras como Bento Gonçalves, Gomes Jardim, Domingos José de Almeida, Corte Real, Onofre Pires, David Canabarro, General Netto, Giuseppe e Anita Garibaldi, Joaquim Teixeira Nunes e seus Lanceiros Negros, John Griggs, Caxias e Grenfell estão presentes na cultura e na memória. Fonte: Wikipédia 

Viajar pode ser muito mais do que conhecer novos lugares. Podemos conhecer a história da região e a geografia e isso me encanta! Pena que as aulas de história e geografia são tão teóricas e sem atração. No meu tempo de colégio, pelo menos, eram assim. Viajando podemos ir além das aulas de história e geografia, podemos ter lições de literatura, biologia e por aí vai. 
O que tem me encantado muito nas remadas pela região da Lagoa dos Patos é a ligação da lagoa e a região da Costa Doce, com a Revolução Farroupilha, por isso, vou me estender um pouco mais nesta postagem e tentar transmitir um pouco da história e geografia da região por onde remamos. Assim, aprendo mais também.
 Sobre a cidade de Camaquã:
 "Localiza-se a uma latitude 30º51'04" sul e a uma longitude 51º48'44" oeste, estando a uma altitude de 39 metros. Sua população estimada em 2004 era de 63128 habitantes. Pertence à Microrregião de Camaquã e Mesorregião Metropolitana de Porto Alegre.
O município conta com as águas do Rio Camaquã, do Arroio Duro e ainda é banhado pela Laguna dos Patos onde se localiza um belo balneário, conhecido pelos camaquenses como Areal ou como IRGA (Instituto Rio Grandense do Arroz), pois lá existe uma unidade desativada dessa instituição.
Dentre os diversos significados dados ao município de Camaquã o mais adequado segundo o autor Antonio Cândido Silveira Pires é o de rio correntoso ou rio forte. Camaquã vem de Icabaquã e na língua tupi-guarani, onde "I" significa rio, água e "Cabaquã" quer dizer velocidade, correnteza. O Rio Camaquã cruza a região, sendo a origem do nome do município." Fonte: Wikipédia

Na verdade, a remada se deu na localidade de Pacheca, um dos quatro distritos de Camaquã, com cerca de 1400 habitantes e situado na região sul do município.(Fonte: Wikipédia)
Achei isso muito interessante:
"A Vila da Pacheca é a região mais importante da cidade em termos de vestígios históricos. Todas as casas da vila estão na beira do Rio Camaquã que era, para esse povoado, o acesso ao mundo. Ali, está a casa de Manoel da Silva Pacheco, considerado fundador de Camaquã, apesar das controvérsias. A vila é conhecida Pacheca porque, quando ele faleceu, sua esposa ficou administrando a fazenda. A localidade viveu um surto de progresso devido às granjas. Em 1922, tinha telefônica e pista de pouso da Varig.
Na Pacheca existem outros lugares históricos: a Fazenda da Tapera, sesmaria dos Centenos; a da Barra, próximo ao atracadouro da balsa que passa para a ilha de Santo Antônio. Ali tem o local da primeira casa de D. Antônia Gonçalves da Silva, irmã de Bento Gonçalves. A fazenda chegou a ter 500 empregados na década de 20.
Quando Garibaldi chegou à Sesmaria do Brejo, também de propriedade de D. Antônia, já encontrou dois lanchões em construção, sob a orientação do norte-americano John Griggs. Nos galpões da velha charqueada o governo republicano mandou construir o seu estaleiro. No final da Revolução Farroupilha, bento Gonçalves se recolheu à Estância do Cristal, então em Camaquã.
Como destaque os heróis como o General Bento Gonçalves da Silva, o general Antônio de Souza Netto, proclamador da República Rio-Grandense e o Revolucionário Italiano Giuseppe Garibaldi com sua fiel e brava companheira Anita Garibaldi." Fonte: http://camaquanoticias.blogspot.com.br/p/historia-de-camaqua.html
 Chegando na fazenda, às margens do Rio Camaquã.
Caiaques indo para a água.
"A Bacia Hidrográfica do Camaquã localiza-se na região central do Estado do Rio Grande do Sul, entre as coordenadas geográficas 28º50' a 30º 00' de latitude Sul e 52º 15' a 53º 00' de longitude Oeste. Abrange as províncias geomorfológicas Escudo Sul-riograndense e Planície Costeira. Possui área de 21.259,11 km², abrangendo municípios como Arambaré, Bagé, Caçapava do Sul, Dom Feliciano e Tapes, com população estimada em 236.287 hab. Os principais corpos de água são o rio Camaquã e os Arroios Sutil, da Sapata, Evaristo, dos Ladrões, Maria Santa, do Abrânio, Pantanoso, Boici e Torrinhas. O rio Camaquã tem suas nascentes a oeste da bacia, com desembocadura a Leste na Laguna dos Patos. Os principais usos da água na bacia se destinam à irrigação e ao abastecimento público." Fonte: SEMA
 Primeira parada em uma das muitas prainhas do Rio Camaquã.
 Segunda parada: Maria Helena e Trieste e...
...seu Pedro e dona Vera.
 Pegadas de capivara.
 Não tenho certeza se esta foi realmente a segunda parada, mas de qualquer maneira, foi onde fizemos o lanche/almoço e num lugar surpreendente, que o Hélio,que já havia remado por aquelas bandas, seu Pedro e dona Vera fizeram questão de nos mostrar, pois se tratava de um leito seco de rio. Impressiona ver que ali, um dia, correu um rio e hoje é só areia. Nas grandes cheias a água deve passar por ali novamente, mas o que será que fez aquele braço de rio secar?
 Leonardo nos fotografando do outro lado.
 Dona Vera e Maria Helena caminhando em direção ao leito seco.
 Toda essa areia é o leito seco do rio.
 Boa parte da remada de sábado foi feita em reservas indígenas, ou seja, era uma grande área. Conversamos bastante sobre isso durante o lanche e fiquei pensando que o lado bom disso, além dos índios terem sua terra garantida por lei, é que boa parte da região parece estar conservada. Por outro lado, sabe-se que grande parte das famílias que habitam essa reserva e acredito que em outras também, não trabalham e não vivem como uma comunidade auto-sustentável como deviam ser seus ancestrais. O que acaba acontecendo é o que vemos em Porto Alegre, índias pedindo esmolas com uma penca de indiozinhos maltrapilhos ou então, os índios alugando parte da reserva para fazendeiros deixarem seu gado e este, destruir o que era para ser uma reserva. De que adianta dar a terra e não dar orientação? 
Depois do lanche e deste momento de reflexão, seguimos a remada pelo rio Camaquã até o Canal do Cortado. Logo após o canal entramos em um braço onde havia uma ponte pênsil. O que me impressionou, foi que a ponte não era pública e sim, de uma fazenda, clube, sei lá. A ponte parecia estar inteirinha e ligava uma parte da fazenda a uma bela casa, com um belo salão de festas. Apesar disso, não parecia que alguém morasse ali, deve ser para eventos mesmo.
O Tubarão Clandestino e Leonardo já na água.
 Ponte pênsil à vista!

 A casa vazia com salão de festas de um lado da ponte.
 Do outro lado, parecia uma fazenda,
... com flores ...
 ...uma bela figueira e mais casas.
Saindo do arroio e chegando na lagoa.

 Aportamos ligeiramente logo após a ponte para alongar um pouco e colocar casacos e vestes, pois o ar já estava mais geladinho, apesar de não ser tarde. 
Logo após a o Canal do Cortado e da ponte, entramos no Arroio Barretas e não demorou muito para encontrarmos a Lagoa dos Patos ou Laguna dos Patos, que estava tranquila e com água transparente! O Hélio, que havia remado há poucos dias na lagoa,  já havia comentado que a água estava clara devido a uma maior concentração de sal na lagoa.
O fenômeno natural é um dos efeitos do La Niña, que combina tempo seco com maior incidência de vento sul e tem como resultado o deslocamento de uma grande quantidade de água salgada do oceano para as praias da laguna, deixando a água mais clara.
É lindo de olhar, mas não sei o quanto esse excesso de sal não pode ser prejudicial ao ecossistema da lagoa. Sei que, para os arrozeiros não é bom, pois li que as lavouras de arroz, que são várias na região e que dependem da água da Lagoa dos Patos, já estão sofrendo com o fenômeno.
 Algas no fundo da lagoa.
 O local escolhido para o acampamento era lindo! Na beira da lagoa e protegido por um enorme banco de areia que formou uma grande piscina. Na areia, muitas pegadas que pareciam de cães. Comentaram que devia ser de graxaim, um mamífero carnívoro também conhecido como raposa dos pampas, mas o Leonardo comentou que poderia ser de lontra, pois as pegadas estavam apenas perto da água.
                           

 Tirando as tralhas dos caiaques.
                                                          
 Local escolhido para montar a barraca.
 Assim que montamos a barraca, Leonardo e eu saímos para caminhar pela praia. Por sorte, não havia muito vento, o que não é 100% bom, pois os mosquitos deram o ar da graça, mas só mais tarde, quando estávamos preparando a janta. 
A caminhada foi muito bacana, o lugar é muito lindo!
 Cruzamos por Maria Helena e Trieste que voltavam da mesma caminhada que começávamos a fazer. Eles comentaram que logo adiante havia uma construção que parecia um bar. Realmente, devia ser um bar, provavelmente frequentado apenas no verão por pescadores da região.
 O bar fantasma.
 A lua nascendo de um lado.
 E o sol se pondo do outro lado.
 A lua deu um espetáculo à parte, pois era o dia da "super lua", o dia em que a lua se encontra mais próxima da Terra, dando a impressão de ser maior que o normal. Tiramos várias fotos dela em diferentes momentos, fizemos inclusive, aquelas famosas fotos de turista brincando com a lua. Só não tiramos fotos no exato momento em que ela estaria mais próxima da Terra, que seria às 23h33 porque Leonardo e eu nos recolhemos antes das 20h30...eu tava com muito sono! Depois de um dia de remada e com a barriguinha cheia, minha pilha vai se apagando...apagando... boa noite!

 Brincando com a lua.



A lua supervisionando o chef Leonardo.
Em vermelho, o trajeto remado no dia.

3 comentários:

  1. Parabéns a todos por essa remada do rio Camaquã e que bela narrativa dos acontecimentos e locais visitados. Deu vontade de estar junto. Fiquei curioso de saber o que são aqueles volumes no caiaque do sr. Pedro e dona Vera, seriam para o excesso de bagagem? Abraços,

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  2. Bah, mas que beleza de postagem, assim vou ter que aposentar o meu blog, que tá pra lá de atrasado... :)
    Germano, os canos me parece que foram colocados pelo Seu Pedro para tentar dar mais estabilidade ao caiaque, pelo que ele me falou, raramente usa para guardar alguma coisa dentro.
    Abração!

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